A certificação foi emitida pela Fundação Cultural Palmares, após um longo processo de estudo sobre a comunidade, que está no território há mais de 200 anos.

Foto: Glenda Uchoa – Coordenação Comunicação Aedas Médio Rio Doce
A Comunidade Quilombola Córrego do 14 foi oficialmente certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares. A certificação de povos e comunidades tradicionais ocorre quando há emissão de documento formal por uma agência estatal que reconhece a autoidentificação de determinada comunidade. No caso das comunidades quilombolas, esse documento é emitido pela Fundação Cultural Palmares, após um longo processo de estudo sobre a comunidade.
Desde a chegada da Assessoria Técnica Independe (ATI) Aedas ao território atingido, no primeiro semestre de 2023, a equipe técnica da Aedas foi acionada pela comunidade, que solicitou apoio no processo de certificação. Desde então, a Aedas tem apoiado a comunidade no processo de reconhecimento institucional e na garantia de seus direitos.
Localizada na zona rural de Naque (MG), a Comunidade Quilombola do Córrego do 14 está a 1km de distância do Rio Doce e é cortada por vários córregos e ribeirões. A comunidade se organiza territorialmente em quatro localidades que compartilham costumes, hábitos, histórias, laços familiares e afetivos: 14 de Baixo, 14 de Cima, Córrego Novo e Córrego do Parado.
A comunidade está no território há mais de 200 anos, sendo muito mais antiga do que os municípios da região.
A Aedas trabalhou junto à comunidade e desenvolveu metodologia participativa que respeita as especificidades da comunidade e as formas de encaminhar a certificação. Ao longo de 2024 foram feitas oficinas de tradicionalidade para levantar a história e os modos de vida da comunidade. Em julho de 2025, aconteceu a Assembleia de Autorreconhecimento.
Desde o início da ocupação tradicional no território já apontava para uma grande riqueza hídrica. Tendo como base a agricultura familiar e o manejo sustentável do solo, a comunidade já foi autossuficiente, com grande produção de feijão, arroz, batata, milho, cará, cana-de-açúcar e pesca de lambari. O excedente da produção era vendido aos tropeiros e também fortalecia os laços comunitários através da troca e doação entre famílias
Na comunidade tinha benzedeiras, rezadores e parteiras. Também tinha procissões, festas de santo, hasteamento de bandeira, folias de reis, batuque, congado e fogueira de São João. A população da comunidade hoje é sua maioria de idosos e idosas, que seguem com a prática ancestral da agricultura familiar e com pequena produção de queijo e leite.

Foto: Cleiton Santos
“A gente sempre soube que era um quilombo. Nossos avós nasceram aqui, nossos pais cresceram aqui. Mas não tínhamos nada no papel. Sem isso, é como se a gente não existisse para o governo. Foi com a Aedas que conseguimos reunir provas, registrar nossa história e mostrar que temos direito à certificação quilombola. Mas ainda falta muito. O que queremos é justiça. Queremos reconstruir. Queremos nossa terra produtiva, nossos costumes preservados, nossa identidade respeitada. A gente já perdeu muito, mas não podemos perder a nossa história”, diz Dona Maria Aparecida, liderança quilombola.
A certificação da Fundação Palmares é uma grande conquista da comunidade, que há anos luta por reconhecimento e reparação. São duzentos anos de luta e manutenção dos seus modos de vida tradicionais. São dez anos de luta por reconhecimento como atingido e por uma reparação justa e integral. A Aedas segue junto do povo!
Texto: Gabriela Azevedo (Gestora) e Esdras Cordeiro (Assessor Técnico) da equipe de Povos e Comunidades Tradicionais (PCT) – Eixo de Marcadores Sociais da Diferença.













Fotos: Gabriela Azevedo, Cleiton Santos e Glenda Uchoa.



