Pessoas atingidas destacam cenário de insegurança por captação de água no Rio Doce

Durante Caravana do Governo Federal, pessoas atingidas de Itueta e Resplendor cobram paralisação da captação de água do Rio Doce 

Atingidos e atingidas participaram, em Resplendor, no dia 12 de março, de reunião da Caravana do Governo Federal, promovida pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) para falar do Programa de Retomada Econômica Rural, o PRE Rural. As pessoas atingidas dos municípios de Resplendor e Itueta aproveitaram a agenda oficial para destacar uma demanda histórica da região: o cenário de insegurança pela captação de água no Rio Doce, atingido pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015. 
 
O abastecimento de água para consumo humano é apontado como uma das lacunas no processo de reparação dos danos causados pelo rompimento. Desde a assinatura do Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), em 2016, as pessoas atingidas destacam que o tema não tem sido tratado com a centralidade demandada pelas comunidades. 

Isac Pereira, representante de Itueta e Resplendor no Conselho Federal de Participação Social do Rio Doce e Litoral Norte Capixaba (CFPS), falou sobre a situação de Itueta: “Precisamos retirar o rejeito que está no grande lago, da usina de Aimorés e do trecho de 34 quilômetros entre Resplendor e Aimorés que está assoreado. Atualmente, estamos conseguindo retirar o rejeito com as mãos, onde antes o rio tinha quatro metros de profundidade”, destaca. 

Isac Pereira, representante do Conselho Federal de Participação Social. Foto: Camila Quintana (Aedas).

Para os municípios de Itueta e Resplendor, que até fevereiro de 2026 tinham abastecimento de água pelo Rio Manhuaçu, foram previstas a realização de testes de tratabilidade da água do Rio Doce. Os estudos, conduzidos em laboratório e em escala real nas Estações de Tratamento de Água (ETAs), tiveram como objetivo avaliar a capacidade de potabilização da água do rio Doce. Com a validação dos resultados, seria possível retomar a captação principal no manancial. 

Os testes foram concluídos e validados pelo Comitê Estadual de Minas Gerais (CEMG), com auditoria da empresa AECOM. Os resultados foram divulgados no site da Samarco, no mês de dezembro de 2025, em linguagem considerada pouco acessível pela população, sem detalhamento do processo e sem ampla divulgação nos territórios. 

Após a retomada da captação da água do Rio Doce, no início de fevereiro, moradores de Itueta e Resplendor voltaram a se mobilizar. Assim como nos anos anteriores, a população tem realizado manifestações pacíficas, expressando preocupação com a qualidade da água. 

A professora Marília Vieira de Almeida, representante de Itueta e Resplendor na Instância Mineira de Participação Social (IMPS), relatou que após a retomada da captação de água no Rio Doce, os postos de saúde já estão recebendo muitos casos de crianças, e que “aumentaram muito os casos de alergia, diarreia, coceira, foi só voltar a captação”. Ela aponta que o Anexo de Infraestrutura poderia atender à demanda, com captação de água de outro rio, que não o Rio Doce. 

 Pedro Gonzaga, da Coordenação Estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), observou que a demanda por água segura é uma demanda de toda a bacia e que as comunidades apontam encaminhamentos: “a não captação dessa água e a execução de um estudo de risco à saúde humana da água do Rio Doce, feito por uma instituição de confiança, como a Fiocruz”. 

Adriana Aranha, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, responde dúvidas dos presentes. Foto: Camila Quintana (Aedas)

As comunidades defendem a manutenção do rio Manhuaçu como alternativa prioritária, com a realização de obras estruturais, se necessário. 

A Assessoria Técnica Independente (ATI) Aedas acompanha a pauta desde o início de sua atuação no território, apoiando as comunidades no diálogo entre saberes técnicos e populares e no encaminhamento das demandas junto aos atores do processo reparatório. 

Histórico 

A reivindicação das pessoas atingidas tem um longo histórico de demandas e lutas. O “Programa 32- Melhoria no Sistema de Abastecimento de Água”, anteriormente responsável pelas ações relacionadas ao abastecimento de água nas localidades que tiveram o abastecimento interrompido após o rompimento, considerou como ações prioritárias apenas a melhoria nos sistemas de abastecimento de água já existentes, mantendo a captação principal pelo rio Doce, prevendo obras para captação alternativa que correspondem apenas a 30% do abastecimento local.  

Em 2020, esse programa foi judicializado no âmbito do eixo prioritário 9, voltado ao abastecimento de água para consumo humano.  

A partir de 2024, com a aprovação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), houve uma participação das comunidades no processo judicial. Representantes puderam se manifestar em audiências, mas com tempo restrito e sem caráter consultivo ou deliberativo. As falas ficaram restritas à exposição da situação local, sem possibilidade de influenciar decisões sobre manancial, obras ou qualidade da água. 

Texto: Luciano Alvim (Comunicação Aedas Médio Rio Doce) e Ana Flávia Rocha (Socioambiental Aedas Médio Rio Doce)