Protagonistas da Reparação: Seu Itamar, esperança e fé no que virá com a luta coletiva

Foto: Cleiton Santos / Aedas

Antes do rompimento da barragem de Fundão, Seu Itamar vivia do que a terra dava. Na chácara que mantem até hoje no Córrego do Café, sua rotina girava em torno da agropecuária e da produção de frutas, legumes, leite e queijos. “Minha fatura era excelente”, lembra seu Itamar. A renda diária chegava a R$600 com a venda de leite e derivados. Era o sustento de casa e o orgulho de uma vida construída com o trabalho das próprias mãos. 

Mas tudo mudou em novembro de 2015. Três dias depois do rompimento da barragem, a lama chegou ao local e transformou a paisagem fértil em um terreno devastado. “A enchente chegou aqui no dia 8 de novembro. A gente salvou algumas coisas, mas o resto se perdeu. O solo ficou contaminado, as plantações morreram, e depois, com as enchentes de 2021 e 2022, acabou tudo de vez.” Hoje, interditado pela Defesa Civil e sem condições de produção, Seu Itamar sobrevive apenas com a aposentadoria. “Se eu tivesse uma terra boa, eu estaria produzindo normal. Mas não tem mais como. A água está contaminada, o solo fraco, e a gente fica sem saída.” 

O momento mais difícil, ele conta, não foi a perda do gado, das plantações ou da renda. Foi o sentimento de impotência diante da família. “O mais marcante para mim é quando minhas filhas pediam alguma coisa e eu não podia dar. Eu tinha propriedade, mas não tinha como tirar o sustento dela. Isso me doía.” A virada nesse sentimento veio com a organização popular. Em 2019, ele passou a integrar o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e, junto à comunidade, começou a lutar por reconhecimento e por direitos. “A gente teve que provar que era atingido. Mesmo tendo propriedade na beira do Rio Doce. Foi com muita luta que conseguimos trazer a assessoria técnica independente. Com fé em Deus e com união, conseguimos algumas conquistas, mas ainda falta muito.” 

Entre as pequenas vitórias, Seu Itamar destaca o acesso ao PTR Rural e a regularização de cadastros como o CAF. “Antes a gente não podia comprovar renda, e por isso não tinha direito. Só com a chegada da assessoria e do MAB é que conseguimos resolver. Agora pelo menos temos um alívio.” 

foto: Cleiton Santos / Aedas

Mesmo com as perdas, ele não desistiu de trabalhar. A partir de 2018, começou a produzir mudas de plantas, primeiro para replantar, depois para vender. “Perdi mais de 700 mudas nas enchentes, mas recomecei tudo de novo. Hoje eu vendo minhas mudas lá no fundo da minha casa, no distrito de Cachoeira Escura. É o que ainda me mantém de pé.” Para seu Itamar é a luta coletiva quem mantém viva a esperança por justiça e reparação. “Não existe conquista sem luta. Se não lutar, você não consegue nada. Tudo que eu tenho hoje foi com luta. E eu fico triste de ver amigos que não participam, porque se eles soubessem o valor disso, estariam junto.” 

foto: Cleiton Santos / Aedas

Com a firmeza de quem tem fé na vida e no que virá, seu Itamar conclui esperançoso: “Eu só consegui seguir em frente porque tive fé em Deus, bons amigos e uma assessoria que olha pela gente. Não há nada sem Deus e sem união. É isso que me dá força pra continuar lutando. Queria ver tudo voltar ao normal, poder trabalhar com tranquilidade e viver do meu suor. É mais gratificante conseguir as coisas com o próprio trabalho do que com qualquer indenização”. 

Texto: Thiago Matos – Assessor de Comunicação da ATI Aedas Médio Rio Doce