
Entre o passar dos trens de carga e o apito dos de passageiros, conversamos com Maria das Graças Cruz Seriaco, mais conhecida por Dra Graça, na varanda de sua casa em Resplendor, no Leste de Minas Gerais. Aos 76 anos, voz firme e olhar sereno, ela carrega no semblante a sabedoria de quem fez da vida uma travessia de lutas e de conquistas.
“Eu sou Maria das Graças Cruz Seriaco, hoje, com 76 anos de vida bem vividos. Venho de uma família humilde, meu pai era lavrador, semianalfabeto, e minha mãe também. Somos sete irmãos. Já passei por muitas lutas. Às vezes a gente se entristece, porque com o tempo vai perdendo pessoas queridas. Mas, mesmo com as dificuldades, eu sempre as vi como estímulos para continuar lutando”, conta.
A educação foi o primeiro campo onde doutora Graça semeou resistência. Atuou no magistério até a aposentadoria, depois, fez pedagogia e, já aposentada, formou-se em Direito movida pelo desejo de ver mais justiça no meu entorno.
Quando a barragem de Fundão se rompeu, em 2015, o Rio Doce trouxe uma onda de destruição que atingiu também o coração de Resplendor. Ela recorda o dia da chegada da lama: “Foi desesperador. Tudo que é novo assusta, e uma novidade ruim assusta mais ainda. Uns ficaram atônitos, outros revoltados. No dia seguinte, vimos que não era algo passageiro… ia afetar a vida da gente, principalmente a água.”
Na época, dra. Graça trabalhava como assessora jurídica da Prefeitura. “Deixamos tudo para ajudar na distribuição de água mineral. Fui para as filas, ajudar a organizar, acalmar as pessoas. Era um momento de tensão. O dia seguinte foi pior que a chegada da lama: a dor e a preocupação só aumentavam. O comércio parou, as escolas suspenderam as aulas, a área rural ficou isolada. Cada dia trazia uma nova dificuldade.”

Dez anos depois, ao lembrar o caminho percorrido, dra. Graça fala de derrotas e vitórias. “Negativamente, lembro das vezes em que saímos das reuniões desanimados, sem esperança. E ver laudos dizendo que a água estava ‘própria para consumo’ foi frustrante. Mas houve momentos de força também: quando percebemos que sozinhos não somos nada. A coletividade manteve nossa luta viva. A tragédia uniu todos – diplomados e analfabetos, negros e brancos, ricos e pobres – com o mesmo objetivo: reconstruir a vida.”
A advogada lembra que o espírito de organização já existia desde o tempo da construção da usina hidrelétrica de Aimorés. “Já tínhamos grupos de atingidos, cadastros de pescadores. Então demos continuidade. Produzimos camisetas, realizamos encontros, e o apoio de movimentos e instituições foi essencial. O Fundo Brasil, o MAB e, depois, a chegada da assessoria técnica independente. A escolha da assessoria foi um momento importante: uma disputa saudável, mas necessária. Precisávamos de quem caminhasse conosco.”
Questionada se existe conquista sem luta, responde firme: “Não, o que vem sem luta não é conquista. A conquista é fruto da resistência e da busca pela equidade. É isso que dá sentido à caminhada, saber que a gente está deixando um legado, plantando uma semente que pode florescer agora ou no futuro.”
Ao refletir sobre o tema que dá nome ao documentário lanço pela equipe de comunicação do Programa Médio Rio Doce da Aedas, dra Graça reflete. “Essa frase significa continuidade. Nesses dez anos, crescemos em consciência social. Lembro de Santo Agostinho: ‘A esperança tem duas filhas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão, e a coragem nos move a transformá-las’. É isso que vivemos: nos indignamos, lutamos e seguimos transformando, passo a passo.”

Texto: Thiago Matos – Assessor de Comunicação da ATI Aedas Médio Rio Doce



