
Maria José Batista Meireles se apresenta com firmeza: “Meu nome indígena é Maru Orutum Puri. Sou do povo Ñamantuza Koya Puri, de Resplendor, no território 7”. É assim, afirmando o nome e a origem, que ela começa a contar sua história. Uma história que atravessa dez anos de luta, resistência e esperança às margens do Rio Doce.
O rompimento da barragem de Fundão, em 2015, mudou os modos de vida dos diversos povos indígenas. A lama destruiu não apenas o rio, mas também as formas como as comunidades tradicionais viviam dele. “O Rio Doce era o nosso sustento. A gente vivia à mercê das águas. Depois do crime, a água ficou impura, o solo enfraqueceu e a vida mudou. Não aceitamos o que aconteceu, porque foi um crime contra nós, contra a natureza e contra nossa cultura.”
Para Maru, o que mais marca esse longo processo é o cansaço de uma espera que parece não ter fim. “São dez anos de incertezas, de promessas. Essa espera prolongada traz preocupação, traz doença. A gente quer solução, quer que o nosso povo tenha futuro”. Ela lembra, com emoção, o dia em que os povos indígenas da Bacia do Rio Doce foram reconhecidos oficialmente. “Foi um momento muito importante em Brasília. Até então, diziam que os povos indígenas da região não existiam. E nós mostramos que estamos vivos, que existimos e que resistimos. Aquilo foi uma vitória.”
Para o povo Purí, a reparação passa, antes de tudo, pelo direito ao território. “Nosso futuro depende dessa terra. Precisamos estar assentados, ter o nosso território garantido. Fora dele, tudo fica mais difícil. Temos nossa língua, nossa cultura, nossos artesanatos…, mas sem terra, é como se tirassem o chão da nossa vida”. Maru também fala sobre a importância da assessoria técnica indígena própria, prevista no Anexo 3 do Novo Acordo Rio Doce. “Essa assessoria é essencial. Nós temos jovens capacitados, temos quem possa trabalhar e representar o nosso povo. Queremos participar com autonomia, construir soluções a partir da nossa visão. É o nosso direito, garantido pela consulta livre, prévia e informada.”
Ao longo desses dez anos, ela aprendeu que nenhuma conquista vem sem luta. “Nós lutamos incansavelmente. Muitas vezes deixamos nossas casas, viajamos para longe, sem saber se iríamos voltar, só pra garantir que a voz do nosso povo seja ouvida. A luta já faz parte da nossa vida.”
No encerramento do seminário de mulheres atingidas, ela deixou uma mensagem firme, olhando para as outras mulheres atingidas, agricultoras, pescadoras, indígenas e ribeirinhas presentes: “Que as mulheres não deixem sua voz ser calada. Nós somos valorosas. Se continuarmos de pé, unidas, alcançaremos o que traçamos nesses anos de luta”.
Texto: Thiago Matos – Assessor de Comunicação da ATI Aedas Médio Rio Doce



