Protagonistas da Reparação: Geraldo Magela, a firmeza de quem sabe que é o sol da luta que ilumina e dá unidade ao povo atingido

foto: Cleiton Santos / Aedas

Há sessenta anos, Seu Geraldo Magela vive na mesma terra, às margens do Rio Doce, no município de Periquito (MG). Filho e neto de agricultores, construiu a vida dividido entre os trabalhos como advogado no Sindicato e a lida na roça. “Sempre vivi da agricultura familiar. Trabalhava com a irrigação que puxava do Rio Doce. Plantava maracujá, feijão, milho e banana. Tinha um projeto bonito aqui”, recorda com um sorriso largo que quem já teve uma terra abundante e produtiva. 

A tranquilidade do campo, no entanto, se perdeu em novembro de 2015. O rompimento da barragem de Fundão trouxe além da lama de minério, o medo e a desconfiança. “Depois da lama, tive que mudar tudo. A água ficou contaminada, o solo adoeceu. O que era área de plantio virou um terreno endurecido. E o pior foi a rejeição das pessoas ao que produzíamos. Ninguém queria mais comprar o que a gente produzia. Diziam: ‘ah, isso vem de lá da beira do Doce, tem veneno’. E tinham razão, a água estava mesmo envenenada. Contaminada”. 

O dano ambiental gerou danos à renda e veio acompanhado da perda material. “A lama aterrrou cercas, tubulações e a área de irrigação. Perdi quase tudo. Sobrou só o motor e uns tubos de irrigação que estavam mais aqui para cima do terreno. Foi um tempo muito difícil. A gente via os peixes mortos, os bichos morrendo na beira do rio. Um cheiro ruim. Nunca tinha visto nada igual”, conta Magela. 

Por muito tempo, as famílias atingidas ficaram sem resposta e sem reconhecimento. Para ele, foi a organização popular das pessoas atingidas que mudou o rumo da luta por reparação. “Primeiro veio o MAB, depois a Aedas. Eles organizaram o povo, mostraram que a gente tinha direito. Se não fosse o MAB e a assessoria técnica, ninguém aqui teria conseguido nada”.  

Para seu Geraldo Magela, foi a partir da luta que as coisas começaram a melhorar. “É a luta coletiva que dá sentido à reparação. Conquista sem luta, eu não conheço! Toda conquista vem da luta. E quando o povo se organiza e tem quem o oriente, tem voz. E essa voz faz diferença”, pontua Magela, com a firmeza de quem sabe que é o sol da luta que ilumina e dá unidade ao povo atingido, sem deixar que ninguém atrapalhe a passagem dos que lutam por reparação. 

Entre as conquistas, Seu Geraldo também destaca o Programa de Transferência de Renda (PTR). “O PTR veio pra corrigir uma injustiça. Ele ajuda quem foi mais atingido, quem perdeu a renda da terra. É um alívio pra quem vive da agricultura. Se não fosse ele, o caos era maior. A agricultura familiar é a salvação do país. Mesmo que a gente produza pouco, é daqui que vem o alimento do povo. O que vai pra exportação não enche barriga de ninguém.” 

Ao falar do futuro, ele mantém a esperança de ver o solo e o rio recuperados. “O que a gente quer é ver o Rio Doce limpo, o solo fértil como era antes. Quero poder devolver pros meus filhos e netos a terra do jeito que recebi: viva e produtiva.” 

foto: Cleiton Santos / Aedas

Mesmo após uma década, Seu Geraldo segue firme na luta sem deixar uns e outros melar, como canta Gonzaguinha. Participa das reuniões do da Aedas, do sindicato, MAB, e de todos os espaços de mobilização popular. “Eu tenho orgulho de participar. Qualquer lugar que tiver reunião, eu vou. Fui pra Resplendor, pra Ipatinga, pra Belo Horizonte, pra Brasília. Onde tiver luta, eu tô junto. Eu já tive diversas chances de ir embora, mas quis ficar aqui. Quero ver isso se resolver. Nós ainda vamos vencer”. E venceremos! 

Texto: Thiago Matos – Assessor de Comunicação da ATI Aedas Médio Rio Doce