Proteger as Águas: comunidades preservam nascentes em território marcado pela mineração  

Entre serras, rios e memórias, moradores de Itatiaiuçu defendem o direito à água e mantêm viva a esperança na reparação em meio às ameaças da exploração mineral   

Pedra Grande, em Itatiaiuçu.  Willian Dias/ALMG

Em Itatiaiuçu, Minas Gerais, a terra guarda riquezas naturais e histórias ancestrais, pulsa também uma outra riqueza muitas vezes silenciosa, essencial e insubstituível: a água. De origem da língua tupi, o nome da cidade de Itatiaiuçu significa “pedra grande e pontuda” como a imponente Pedra Grande, cartão postal da região. Disputando o espaço com a riqueza das águas e da terra, está a forte e barulhenta atividade minerária, que tem avançado a Serra do Itatiaiuçu. A serra integra o Quadrilátero Ferrífero e se conecta com a Cordilheira do Espinhaço, importante formação rochosa de Minas Gerais. 

É nesse território moldado por serras e atravessado por córregos que as comunidades locais assumem um papel que vai além da resistência: tornam-se guardiãs das nascentes.

“Eu nasci, cresci à beira de um córrego e sempre tive uma boa relação com esse córrego”, conta Fabiana Lima, professora e atingida da comunidade de Vieiras. “Usava ele pra poder brincar, nadar, pescar, lavar roupa. Sempre tive essa relação muito importante com o córrego que passa no fundo da casa da minha avó”, contou.   

Córrego em Itatiaiuçu. Foto: Fabiana Lima

O território de Itatiaiuçu possui três rios: São João, Veloso e Serra Azul. Ele integra a sub-bacia do Rio Manso, que, por sua vez, faz parte da bacia do Rio Paraopeba. É daqui que nascem águas que abastecem grande parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Rios como o São João e o Veloso percorrem o território, alimentando o Rio Manso, um sistema vital que já demonstrou sua importância em momentos críticos, como após o rompimento da barragem em Brumadinho, quando o Rio Paraopeba foi contaminado e o abastecimento precisou ser reestruturado de maneira emergencial. 

Antes de chegar às torneiras, a água percorre caminhos que exigem cuidado. E é nesse percurso que as comunidades entram em cena com um forte vínculo com a preservação. Um deles é fazer mutirões de preservação das nascentes, com manutenção dos mananciais. Distritos e lugarejos se entrelaçam com córregos, cachoeiras e nascentes, formando uma rede viva que sustenta não apenas o território, mas também sua cultura e identidade. 

Pedra Grande, em Itatiaiuçu.  Willian Dias/ALMG

Para Fabiana, atingida de Vieiras, a água é um bem coletivo que deve ser respeitado enquanto um caminho de conexão entre diferentes territórios. “Acho muito importante porque água é vida, então a água que passa no fundo da casa da minha avó é uma água que vai parar lá no rio São Francisco. Então é superimportante a gente aqui preservar para que outras pessoas possam usufruir desse recurso natural tão importante que é a água”, afirmou a atingida. 

Reparação coletiva passa pela preservação dos córregos e nascentes 

A abundância da água convive com uma ameaça constante. A mineração, atividade historicamente presente na região, avança sobre o território e coloca em risco os recursos hídricos. Quando a água é ameaçada, tudo o mais também se fragiliza: a agricultura, o turismo, a fauna, a flora e, sobretudo, a vida das comunidades. 

Diante desse cenário, surgem ações que unem justiça, ciência e saber popular. Uma das medidas de reparação previstas no TAC 2 (Acordo para os danos coletivos das pessoas atingidas de Itatiaiuçu) busca mapear nascentes, rios e córregos, identificando áreas vulneráveis à contaminação.  

Grupo Temático debate cursos d’água e outras medidas de Meio Ambiente.

Kleiton Bezerra, assessor técnico da Aedas Itatiaiuçu, explica a intenção da medida. 

“A ideia de uma das medidas é mapear principalmente o esgotamento da região, quem tem fossas rudimentares próximas a rios, chiqueiros e galinheiros que ficam próximos à cursos d’água, uso de fertilizantes e agrotóxicos, rejeitos e outras ameaças aos recursos hídricos. Uma outra medida também prevê o mapeamento do potencial hídrico da região, investigando a vazão dos córregos, e identificando quais rios estão sempre com água, o comportamento destes mananciais durante o ano e o estado de conservação do ambiente em torno dessas águas.”, explicou.   

As comunidades atingidas enxergam a medida como uma oportunidade de reforço ao meio ambiente ameaçado e as fontes de recursos naturais do território. “Algo que vai devolver a saúde hídrica dos nossos rios, a questão a fauna, da flora que permeiam o fluxo do rio”, concluiu Fabiana.   

As comunidades compreendem, talvez melhor do que ninguém, que preservar a água é preservar a própria existência. E fazem isso não por obrigação, mas por pertencimento. Há uma relação afetiva com cada córrego e cada nascente que atravessa o território. 

Em tempos em que o acesso à água se torna um desafio global, histórias como as de Itatiaiuçu iluminam caminhos possíveis. Mostram que, mesmo diante de grandes pressões, é possível resistir com cuidado, conhecimento e união. 

Placas alertam sobre risco em territórios de Itatiaiuçu. Foto: Valmir Macêdo/Aedas

No Dia Internacional do Meio Ambiente, que convida o mundo à reflexão, essas vozes ecoam como um lembrete: proteger a água não é apenas uma questão ambiental, é um ato de justiça, de memória e de reparação coletiva. 

Preservação das águas reforça objetivos globais de sustentabilidade em Itatiaiuçu 

A iniciativa de reparação coletiva voltada à preservação de córregos e nascentes em Itatiaiuçu dialoga diretamente com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 06 da ONU, que prevê a garantia de água limpa e saneamento para todos.  

Sobre o TAC 2  

Foto: MPMG

Assinado em maio de 2025, o Segundo Termo de Acordo Complementar estabelece as bases para a governança, execução e monitoramento das medidas de reparação coletiva a serem implementadas pela ArcelorMittal, Município de Itatiaiuçu e comunidades atingidas.  

O investimento é de R$ 300 milhões em recursos novos. Desse montante, cerca de R$ 215 milhões são destinados às medidas de reparação coletiva e difusa, enquanto R$ 85 milhões estão sendo investidos no pagamento das prestações mensais aos moradores de Pinheiros, Vieiras e Lagoa das Flores, como incremento de renda.  

A execução do TAC 2 é acompanhada por um Comitê Local de Gestão e Monitoramento, composto por representantes das comunidades atingidas, do município, da ArcelorMittal, da Entidade Gestora Independente e de representante da sociedade civil, membro de movimento(s) social(is) de pessoas atingidas por barragens.  

Texto: Valmir Macêdo