Comissões territoriais: a reparação organizada pelo povo atingido

Criadas a partir do TAC-Governança, as Comissões Territoriais fortaleceram a participação popular e a luta por direitos no Médio Rio Doce

Criadas a partir do TAC-Governança, as Comissões Territoriais fortaleceram a participação popular e a luta por direitos no Médio Rio Doce

No Médio Rio Doce, a reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão vem sendo construída, cotidianamente, a partir da organização coletiva das pessoas atingidas. Ao transformar dor, indignação e perdas em participação política ativa, as populações atingidas fizeram surgir a expressão mais concreta da participação popular no processo de reparação: as Comissões de Atingidos e Atingidas.

Eleitas em assembleias realizadas ao longo de 2023, a partir do TAC-Governança, as Comissões de Atingidos e Atingidas foram consolidadas com ampla participação popular e fortaleceram a luta das pessoas atingidas no processo de reparação ao longo da bacia do Rio Doce. Estabelecido em 2018, o TAC-Governança foi um instrumento extrajudicial de solução alternativa de conflitos, criado para garantir que as pessoas atingidas assumissem um papel ativo sobre o processo de reparação integral já que o primeiro Termo assinado, o Termo de Ajustamento de Conduta (TTAC), excluiu a participação popular.

O Novo Acordo Rio Doce, celebrado em 2024, por outro lado, legitimou algumas estruturas de governança já existentes, reconhecendo, por exemplo, o papel das Comissões de Atingidos e Atingidas. Ainda que tenham ocorrido mudanças nas formas de atuação e nos espaços de participação, as Comissões de Atingidos e Atingidas não foram extintas. Elas seguem sendo reconhecidas no processo de reparação, inclusive como base para a escolha das representações que hoje ocupam os espaços formais de governança.

Assessoradas pela Aedas, as Comissões dos territórios 3 (Vale do Aço), 6 (Conselheiro Pena), 7 (Itueta e Resplendor) e 8 (Aimorés) cumprem um papel estratégico, respondendo a uma demanda central: assegurar a participação informada e efetiva das pessoas atingidas nas decisões que geram mudanças diretas em seus territórios e seus modos de vida.

As Comissões são espaços vivos de debate, formulação de propostas e mobilização social. É nelas que também se discutem a reparação dos danos à saúde, à água, à renda e sobre medidas de reativação econômica, criação de políticas públicas, projetos comunitários e, sobretudo, os limites e contradições do processo de reparação conduzido ao longo dos últimos anos.

  • Acompanhamento do Novo Acordo Rio Doce, com atualização permanente sobre seus eixos, diretrizes e mudanças para as comunidades atingidas;
  • Participação nos espaços de governança, por meio de informes e debates sobre reuniões externas com articuladores, o Conselho Federal de Participação Social (CFPS) e a Instância Mineira de Participação Social (IMPS);
  • Levantamento e apresentação de demandas comunitárias, assegurando que as reivindicações dos territórios sejam sistematizadas e encaminhadas aos espaços institucionais;
  • Indenizações, com debate sobre critérios, entraves, negativas e a necessidade de garantir acesso justo aos direitos das pessoas atingidas;
  • Diálogo com as Instituições de Justiça, incluindo solicitações de reuniões para esclarecimentos, cobranças e incidência sobre o processo de reparação;
  • Projetos comunitários, com foco na retomada econômica, no fortalecimento das organizações locais e na construção de alternativas coletivas de geração de renda e melhoria das condições de vida.
  • Acesso às medidas de reparação, com foco em indenizações, Programa de Transferência de Renda (PTR), participação em editais e elaboração de projetos comunitários;
  • Participação informada nas instâncias de governança, especialmente no Conselho Federal de Participação Social (CFPS) e na Instância Mineira de Participação Social (IMPS);
  • Produção e envio de documentos técnicos, como ofícios, atas, pareceres e notas técnicas, utilizados como instrumentos de cobrança e incidência política no processo de reparação;
  • Produção de materiais informativos, incluindo livretos, jornais, cartilhas e boletins, voltados à ampliação do acesso à informação pelas pessoas atingidas;
  • Cobrança aos órgãos responsáveis, a partir de documentos elaborados pela ATI a pedido da Comissão, provocando ministérios e instâncias do processo reparatório a responderem sobre entraves no acesso às medidas de reparação;
  • Defesa do direito ao PTR, com acionamento direto do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), visando garantir a efetivação dos direitos das pessoas atingidas de Conselheiro Pena.
  • Falta de transparência da Samarco, especialmente sobre a captação e a distribuição de água do Rio Doce, e insatisfação com o Novo Acordo de reparação, firmado sem a participação efetiva das pessoas atingidas, aprofundando desigualdades e desfavorecendo os mais vulneráveis;
  • Negativas por suposta fraude, sem justificativa clara ou garantia de direito à defesa, e excesso de burocracia documental, que impede ribeirinhos e ilheiros, sem registros formais de terra ou renda, de acessarem indenizações;
  • Danos à saúde, com relatos do aumento de casos de câncer nas comunidades atingidas após o rompimento da barragem;
  • Retomada econômica e autossustentabilidade, com propostas voltadas à regularização e criação de associações de moradores e ao desenvolvimento de iniciativas que integrem restauração ambiental e geração de renda;
  • Projetos de reativação econômica, com prioridade para a geração de renda para as mulheres, o fortalecimento das organizações comunitárias e a formação política continuada, como base para a autonomia das comunidades na gestão e execução de seus próprios projetos.
  • Fortalecimento da organização e da participação informada, com debates sobre o funcionamento da comissão, articulação com o poder público e presença em espaços institucionais de controle social nos âmbitos municipal, estadual e federal;
  • Direito à água e segurança hídrica, com cobrança de transparência sobre o sistema de abastecimento do distrito de Santo Antônio do Rio Doce, defesa da captação no Rio Manhuaçu e rejeição ao uso da água do Rio Doce por falta de confiança em sua potabilidade;
  • Participação social e controle do acordo, com a escolha de representantes para instâncias como o Conselho Federal de Participação Social e a Instância Mineira de Participação Social.
  • Pesca artesanal e ordenamento pesqueiro, com reivindicação de ampla participação dos pescadores nos processos decisórios, correção de falhas cadastrais e garantia de acesso aos programas de pesca previstos no acordo;
  • Ampliação e acesso ao Programa de Transferência de Renda (PTR), com destaque para as dificuldades de regularização do Cadastro da Agricultura Familiar (CAF) e do Registro Geral da Pesca (RGP), exigência de prorrogação de prazos e esclarecimentos sobre a elegibilidade de aposentados e a acumulação com o seguro-defeso;
  • Danos à saúde, com acompanhamento do Plano Municipal de Atenção à Saúde, denúncias de falta de medicamentos, defesa da melhoria da estrutura do SUS e reivindicação de investimentos, como a aquisição de equipamentos de diagnóstico;
  • Infraestrutura e segurança, com denúncias sobre a precariedade da Ponte Jones Santos Neves, exigindo laudos técnicos, transparência e providências urgentes para garantir mobilidade e segurança da população;

Texto: Thiago Matos – Assessor de Comunicação da ATI Aedas Médio Rio Doce