
Da coleta nas ruas à mobilização comunitária, catadores organizados no GT do Galpão de Coleta Seletiva impulsionam um projeto que alia reparação, sustentabilidade e desenvolvimento local
Em Itatiaiuçu, na região atingida pelo acionamento do plano ação de emergência da barragem da Mina Serra Azul, histórias de resistência, trabalho e cuidado com o meio ambiente ganham destaque por meio da atuação de catadores de materiais recicláveis que buscam transformar uma atividade essencial em uma oportunidade de desenvolvimento coletivo.
Entre eles estão Joyce Costa Ferreira e João de Jesus Ferreira, pai e filha, que encontraram na reciclagem não apenas uma fonte de renda, mas também uma missão de vida.

A trajetória da família começou de forma simples. João relembra que iniciou o trabalho com um carrinho de mão, recolhendo materiais recicláveis às margens da rodovia. Com o passar dos anos, a atividade se tornou o principal sustento da família e foi passada para os filhos. Hoje, Joyce dá continuidade a esse legado, reforçando a importância da reciclagem como meio de garantir renda e dignidade para diversas famílias do município.
Apesar da relevância ambiental e social do trabalho realizado pelos catadores, os desafios ainda são muitos e a falta de infraestrutura ainda é uma realidade. Os catadores enfrentam sol, chuva, lama e condições inadequadas para armazenar e separar os materiais recolhidos.
Assista:
“A gente não tem uma estrutura. Quando chega a época de chuva, é muita lama que a gente pega. É uma situação precária para nós, catadores.”, contou Joyce.
Foi a partir dessa realidade que surgiu a mobilização para a criação de uma associação de catadores em Itatiaiuçu. Por meio de um Grupo Temático para elaboração de um dos Planos Populares previstos do TAC 2, os participantes passaram a discutir alternativas para fortalecer a categoria e construir soluções coletivas. Entre os principais projetos está a implantação de um galpão de coleta estruturado, capaz de oferecer melhores condições para armazenamento, triagem e comercialização dos materiais recicláveis.

“A gente começou a formar um grupo onde debate esse assunto da reciclagem, onde a gente fala também de uma construção de um galpão sendo estruturado para todos os catadores que tiverem interesse de participar com a gente”, lembrou Joyce.
A proposta foi construída de forma participativa. Os catadores realizaram pesquisas, visitaram outras associações e conheceram experiências bem-sucedidas em municípios da região, como Mário Campos. A expectativa é que o futuro espaço conte com equipamentos para beneficiamento dos resíduos sólidos

“Nós vamos ter prensa, nós vamos ter caminhão, nós vamos ter a correia, mais várias outras coisas. Um galpão bom para a gente trabalhar, com uma estrutura boa. É isso que a gente quer“, explicou João de Jesus.
Além dos benefícios diretos para os trabalhadores, o projeto é visto como uma oportunidade de geração de emprego e fortalecimento da economia local. A iniciativa busca integrar mais famílias à atividade, ampliando as oportunidades para a comunidade e promovendo mais segurança e qualidade de vida para os profissionais da reciclagem.

Os catadores também ressaltam a relação entre o seu trabalho e a preservação ambiental. Para Joyce, a atuação vai além da coleta de resíduos. Ela destaca que os catadores são verdadeiros cuidadores da natureza: “A gente não é só um reciclador. A gente é cuidador da natureza, porque isso impacta muito o futuro da gente”, afirma.
João estima retirar cerca de 12 toneladas de materiais recicláveis por mês, volume que deixa de seguir para aterros, córregos e nascentes. Para ele, ampliar a conscientização da população e levar o tema da reciclagem para as escolas são passos fundamentais para construir um futuro mais sustentável.

Como moradores de uma área atingida, Joyce e sua família também enxergam a iniciativa como parte do processo de reparação dos danos vivenciados pela comunidade. O fortalecimento da reciclagem representa não apenas uma oportunidade econômica, mas também um caminho para reconstruir perspectivas, promover inclusão social e incentivar o cuidado com o território.

Entre sonhos e desafios, os catadores de Itatiaiuçu seguem trabalhando para transformar uma realidade marcada pela precariedade em um exemplo de organização, sustentabilidade e protagonismo. Eles defendem que o apoio do poder público, das instituições e da população é essencial para que a reciclagem ocupe o espaço que merece: como ferramenta de geração de renda, proteção ambiental e reparação social.







Texto e fotos: Valmir Macêdo
Produção e apoio: Joyce Marinho e Cairo Andrade



