Retrospectiva Médio Rio Doce: um ano para esperançar a luta do povo atingido com participação informada e protagonismo

O ano de 2025 foi marcado por avanços importantes, disputas políticas, mobilizações populares e pela reafirmação do protagonismo das pessoas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão. Ao longo dos doze meses, a Aedas esteve presente nos territórios do Vale do Aço, Conselheiro Pena, Resplendor, Itueta e Aimorés e em novas frentes, como Barra Longa, fortalecendo a participação informada, a organização coletiva e a defesa de direitos diante de um processo de reparação ainda marcado por atrasos, assimetrias e violações. 

Esta retrospectiva reúne alguns dos principais fatos, agendas e lutas que atravessaram 2025. 

Janeiro: solidariedade, informação e articulação institucional 

O ano começou com a Aedas atuando de forma solidária diante das fortes chuvas que atingiram Ipatinga e Santana do Paraíso, no Vale do Aço, reafirmando o compromisso com a proteção das comunidades em contextos de emergências climáticas. Paralelamente, os atendimentos individuais ganharam centralidade, com grande volume de dúvidas sobre o Programa de Transferência de Renda (PTR), CAF e RGP, revelando a complexidade do novo acordo e a necessidade permanente de informação qualificada. 

Janeiro também foi marcado pela articulação com instituições de ensino. A reunião estratégica entre Aedas e o IFMG abriu caminho para ações educativas voltadas ao fortalecimento da autonomia das pessoas atingidas, conectando conhecimento técnico, educação popular e reparação integral. 

Fevereiro: participação social e acesso a direitos 

Em fevereiro, as pessoas atingidas ocuparam o centro do debate público ao cobrar a ampliação da participação no recém-criado Conselho Federal de Participação Social. O período também foi marcado por intensa mobilização em torno do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) e do Programa de Transferência de Renda (PTR), com mutirões, plenárias e parcerias institucionais, como a estabelecida entre a Aedas e a Emater. 

A publicação da 3ª edição do Jornal Territórios consolidou esse momento, ao detalhar a implementação do PTR-Rural e PTR-Pesca nos territórios atingidos. Ao mesmo tempo, plataformas indenizatórias mantidas pela mineradora causadora dos danos, a Samarco, seguiram sendo objeto de orientação crítica, diante das limitações e inseguranças jurídicas enfrentadas pelas pessoas atingidas. 

Março: mulheres, quilombolas e o novo acordo em debate 

Março foi atravessado pela Caravana Rio Doce e pela Caravana Interministerial, que percorreram municípios atingidos levando informações sobre o novo acordo de reparação e abrindo espaços de diálogo direto com o Governo Federal. Mais de 200 pessoas participaram dos encontros, incluindo comunidades quilombolas, que entregaram cartas de reivindicações e denunciaram violações históricas. 

O mês também destacou a luta das mulheres atingidas. A 4ª edição do Jornal Territórios e o Seminário Mulheres Atingidas reforçaram a centralidade do debate sobre participação, reparação integral e reconhecimento dos danos específicos vividos pelas mulheres ao longo de quase uma década de desastre-crime. 

Abril: saúde, território e protagonismo popular

Em abril, a agenda da saúde ganhou força com ações e formações em vigilância popular, produção de conhecimento comunitário e debates sobre políticas públicas no Médio Rio Doce. Mulheres dos territórios atingidos realizaram seminários para dialogar sobre o Programa para Mulheres previsto no acordo de repactuação, reafirmando que não há reparação sem escuta qualificada. 

O mês também foi marcado por histórias de resistência, como os 27 anos do Assentamento Liberdade, e por trajetórias de luta individual e coletiva, retratadas na série Protagonistas da Reparação, que deu visibilidade a mulheres quilombolas, agricultoras e pescadoras. 

Maio e junho: consolidação de políticas e novas frentes de atuação 

Maio trouxe avanços institucionais importantes, como a portaria que instituiu o Conselho Federal de Participação Social da Bacia do Rio Doce e Litoral Norte Capixaba, além da intensificação das mobilizações dos Grupos de Atingidos e Atingidas (GAAs). Cartilhas, formações e materiais informativos passaram a ocupar papel estratégico na ampliação da participação informada. 

Em junho, o Governo Federal anunciou novas medidas de reparação, incluindo a oficialização da contratação da Aedas como Assessoria Técnica Independente em Barra Longa, durante agenda com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O período também foi marcado por denúncias contundentes: quase dez anos após o rompimento, pessoas atingidas ainda não tinham acesso ao plano de recuperação ambiental conduzido pelas mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton. 

Julho a setembro: renda, conselhos e participação institucional 

O segundo semestre foi marcado pela execução do Programa de Transferência de Renda, com o início dos pagamentos a pescadores artesanais e agricultores familiares atingidos. Julho e agosto concentraram prazos, reaberturas e revisões do PID, exigindo intensa atuação da Aedas para garantir que informações chegassem aos territórios. 

Ao mesmo tempo, avançou a estruturação dos espaços de participação social. Pessoas atingidas elegeram representantes, tomaram posse no Conselho Federal e passaram a ocupar instâncias decisórias com reuniões em Brasília, Belo Horizonte e nos municípios. O seminário “Do Rio ao Mar”, organizado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), fortaleceram o debate sobre projetos comunitários e reparação integral. 

Outubro: escuta das mulheres e construção coletiva 

Outubro foi dedicado, sobretudo, aos Seminários Temáticos de Consulta sobre o Programa para Mulheres. Apesar de adiamentos em alguns territórios, as consultas realizadas reafirmaram a importância da escuta, da construção coletiva e do protagonismo feminino na definição das políticas de reparação. 

Novembro: dez anos de crime, dez anos de luta. Essa história não se rompe! 

Em novembro, a memória e a denúncia ocuparam o centro da agenda. O rompimento da barragem de Fundão completou dez anos, sem que a reparação integral tenha sido efetivada. Atos públicos, edições especiais do Jornal Territórios e encontros de comunidades quilombolas reafirmaram que a luta por justiça segue viva. 

O mês também foi marcado por um fato histórico: a justiça inglesa condenou a BHP Billiton pelo desastre-crime na Bacia do Rio Doce, ampliando a responsabilização internacional das empresas envolvidas, ao lado da Vale. 

Dezembro: novos ciclos de participação 

O ano se encerrou com a posse e a reunião inaugural da Instância Mineira de Participação Social (IMPS/Doce), simbolizando a abertura de um novo ciclo de organização, controle social e disputa por direitos no processo de reparação. 

Um ano que reafirma o sentido da luta coletiva 

A retrospectiva de 2025 mostra que, mesmo diante de obstáculos, a reparação avança quando há organização popular, assessoria técnica independente e participação informada. A Aedas segue ao lado das pessoas atingidas, fortalecendo vozes, construindo pontes e reafirmando que justiça não é concessão: é conquista coletiva.

Confira o carrossel especial

Confira as retrospectivas dos anos anteriores: