Metodologia participativa organiza a atuação da assessoria técnica e reforça o papel das pessoas atingidas no centro das decisões sobre reparação e desenvolvimento local e regional
A organização do trabalho da ATI Aedas Médio Rio Doce junto às pessoas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão conta, agora, com a realização de Ciclos Territoriais, estratégia metodológica que articula saberes técnicos e conhecimentos populares, garantindo que a participação das comunidades atingidas aconteça de forma qualificada, informada e permanente.
“O Ciclo Territorial é uma estratégia metodológica que articula saberes técnicos e conhecimentos populares, garantindo que a participação das comunidades atingidas aconteça de forma qualificada, informada e permanente.”
Com duração de 60 dias e realização contínua, cada ciclo reúne atendimentos individuais (agendados e espontâneos), reuniões dos Grupos de Atingidos e Atingidas (GAA) e visitas às lideranças comunitárias, como Agentes Multiplicadores (AGM), Comissões Territoriais e atingidos que constroem as demais instâncias de participação social.
No primeiro ciclo de 2026, a Aedas realizou 105 visitas às lideranças comunitárias e apoiou a execução de 44 reuniões de Grupos de Atingidos e Atingidas (GAA). O foco principal do primeiro ciclo foi a construção, apresentação e discussão de projetos comunitários voltados à retomada econômica dos territórios, com vistas à submissão no Edital do Fundo de Participação Social, previsto no Anexo 6 do novo acordo de reparação.
Ao final de cada ciclo, a equipe multidisciplinar da Aedas realiza um seminário interno para sistematizar as principais demandas identificadas e definir estratégias de encaminhamento, tornando as ações mais articuladas e efetivas.
Andreia Carvalho, da direção coletiva e coordenação territorial da ATI Aedas Médio Rio Doce, destaca que a repetição do processo a cada 60 dias fortalece a capacidade de resposta às necessidades das comunidades. “À medida que se repete a cada 60 dias, o Ciclo Territorial garante continuidade, acompanhamento e capacidade de resposta às demandas que emergem nos territórios, criando condições para que as soluções sejam construídas coletivamente com mais celeridade”, afirma.
Andreia Carvalho ressalta que o Ciclo Territorial representa uma decisão institucional e política baseada na centralidade da participação popular para a reparação integral.
“O Ciclo Territorial é a forma como organizamos o assessoramento, articulando metodologias participativas que permitem construir conhecimento a partir do diálogo entre o saber técnico e o saber das comunidades. Esse processo garante acompanhamento próximo, fortalece vínculos e qualifica a participação das pessoas atingidas nas decisões sobre seus próprios territórios.”, afirma Andreia.
Mulheres no centro: protagonismo, autonomia e reparação
As mulheres atingidas têm ocupado papel central na construção dos projetos comunitários debatidos durante o Ciclo Territorial da ATI Aedas Médio Rio Doce. A escuta ativa realizada nos territórios revelou demandas históricas relacionadas à geração de renda, inserção no mundo do trabalho, acesso a espaços de lazer, cultura, saúde e fortalecimento dos vínculos comunitários.
A partir desse diálogo permanente, propostas concretas vêm sendo estruturadas para responder às realidades vividas pelas mulheres nas comunidades atingidas.
Até o momento, cerca de 16% dos projetos comunitários elaborados em diálogo com os territórios são voltados exclusivamente para atender demandas das mulheres atingidas.
Outros 19% contemplam diferentes públicos, mas preveem prioridade para o atendimento das mulheres atingidas. Isso significa que ao menos 35% dos projetos construídos e debatidos nos territórios assessorados pela Aedas atendem diretamente às necessidades apresentadas pelas mulheres atingidas do Médio Rio Doce.
Ariana Silva, coordenadora da equipe temática de Raça e Gênero, destaca que as iniciativas priorizam a autonomia econômica das mulheres e criam condições concretas para sua participação.
“As iniciativas priorizam ações capazes de ampliar a autonomia econômica das mulheres, como cursos profissionalizantes, valorização de saberes locais, estruturação de espaços coletivos de trabalho, apoio à organização de cooperativas e associações, além de estratégias de comercialização presencial e digital. Também estão previstas medidas essenciais para garantir a participação efetiva das mulheres, como bolsas de incentivo à permanência durante os processos formativos e espaços de cuidado para crianças nos dias de encontro.”
Camila Ribeiro, coordenadora geral do eixo temático sobre Marcadores Sociais da Diferença, aponta que além de fortalecer a geração de renda, esses projetos reconhecem trajetórias historicamente invisibilizadas no processo reparatório. “Muitas mulheres relataram perdas econômicas não reconhecidas oficialmente e dificuldades para comprovar atividades produtivas exercidas antes do rompimento da barragem de Fundão. Nesse contexto, os projetos comunitários representam também a possibilidade de reconstrução da dignidade, do protagonismo e do direito de reescrever a própria história”, destaca Camila.
A presença das mulheres atingidas também marcou todo o processo participativo que antecedeu a elaboração das propostas. Elas contribuíram com relatos, ideias e prioridades em reuniões de Grupos de Atingidos e Atingidas (GAA), encontros do Eixo Mulheres, espaços de Agentes Multiplicadores (AGM) e demais instâncias da metodologia participativa da Aedas. Com isso, reforçam sua liderança em temas estratégicos para a reparação coletiva nos territórios atingidos.
Resultados esperados: fortalecimento da economia local e reconstrução coletiva
Os projetos comunitários construídos nos territórios atingidos têm potencial para gerar emprego, renda e fortalecer as economias locais. As iniciativas podem consolidar um modelo de desenvolvimento baseado nos princípios da economia popular e solidária, com valorização do trabalho, preços justos, sustentabilidade ambiental e distribuição equilibrada dos benefícios.
A retomada econômica dos territórios atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão é uma demanda central das comunidades do Médio Rio Doce. Há mais de dez anos, famílias convivem com perdas de renda, paralisação de atividades produtivas, desemprego e o aprofundamento das vulnerabilidades sociais causadas pelo desastre-crime.
Nos territórios assessorados pela ATI Aedas Médio Rio Doce, o desafio é transformar essas demandas acumuladas em projetos sustentáveis, capazes de responder às realidades locais e produzir efeitos duradouros. Para isso, é essencial considerar as especificidades de cada comunidade, priorizar grupos mais vulnerabilizados e garantir a participação das pessoas atingidas em todas as etapas do processo de construção dos projetos comunitários – da elaboração das propostas à implementação das ações.
Segundo Natanael Nogueira, coordenador da equipe temática de Economia, Trabalho e Renda da ATI Aedas Médio Rio Doce, a sustentabilidade dessas iniciativas depende diretamente do protagonismo popular. “Só teremos garantia da sustentabilidade dos Projetos Comunitários com a busca constante da organização e da autonomia das pessoas atingidas nesse processo de construção”, afirma.
Ele destaca que os resultados esperados vão além da geração imediata de postos de trabalho e renda. Quando os projetos fortalecem circuitos locais de produção, comércio e serviços, toda a comunidade é beneficiada. A renda permanece no território, movimenta a economia local e pode contribuir, inclusive, para melhorias nos serviços públicos.
“Estamos falando de uma importante janela de oportunidade para os territórios atingidos”, ressalta Natanael. “Com participação popular e organização comunitária, é possível impulsionar emprego, renda e qualidade de vida, além de construir uma reparação mais justa e efetiva.”, conclui.
Texto: Thiago Matos – Assessor de Comunicação da ATI Aedas Médio Rio Doce para o Jornal Territórios



