União entre famílias e comunidades cobra pela condenação dos responsáveis e criticam o modelo de mineração que põe o lucro acima da vida

Atingidas e atingidos pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho transformaram a dor em luta em mais um dia 25 de janeiro. Em 2026, neste domingo (25), a data chegou ao marco de 7 anos do desastre crime que ceifou a vida de 272 pessoas, atingiu reconhecidamente 26 municípios da Bacia do Paraopeba, irradiando danos sociais e ambientais que transformaram, para pior, a vida de milhares de pessoas.
A data reuniu centenas de pessoas de Brumadinho e de outras regiões atingidas da Bacia do Paraopeba, além de comunidades de outras regiões mineiras, como Mariana, Itabira e Governador Valadares, também atingidas por rompimentos de barragem de mineração e que se somaram em solidariedade.

A programação começou cedo, com uma celebração eucarística na praça Dona Orides Prado. Dentre os celebrantes estavam o Padre Marcos Albuquerque, da Paróquia São Sebastião em Brumadinho e Dom Francisco Cota, bispo de Sete Lagoas e referencial para a Comissão Episcopal de Ecologia Integral e Mineração da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB Leste.
Este ano, a Romaria pela Ecologia Integral a Brumadinho chegou a sua 7ª edição, com o lema: Justiça, Memória e Esperança. “Num mundo que tenta pelo poder econômico subjacente fazer imperar e reinar a morte, aqui estamos também para sermos os profetas da esperança”, afirmou o padre Marcos Albuquerque.
Para Dom Francisco Cota, a Romaria é uma maneira de revisitar a “tragédia-crime”, o rompimento da barragem, que trouxe uma situação de sofrimento e de dor, ceifando vidas e despejando lama na Bacia do Paraopeba. Segundo o Bispo, é preciso que a vida das pessoas esteja em primeiro lugar, e não o lucro das grandes empresas.
“Pensar nesse empreendimento minerário que chega aos territórios sem trazer benefícios ao território, para a localidade, chega apenas para a extração minerária, com a perspectiva de lucro, sem levar em conta os danos socioambientais que nós chamamos de passivos, que geram ali junto à comunidade, junto aos territórios. Então nós clamamos por ecologia integral, nós clamamos por justiça socioambiental”, afirmou o bispo.

Uma missa também foi realizada no Córrego do Feijão. A Igreja Nossa Senhora das Dores abriu suas portas para uma missa em memória das 272 vítimas do rompimento. A igreja e o campo de futebol, destaques da comunidade, foram o ponto de apoio para as operações de resgate. Desde 2019, em todo dia 25 é realizada uma missa para homenagear as vítimas. Às 12h28, horário em que rompeu a barragem, o sino da igreja ressoou em 272 badaladas em memória às joias perdidas.
Após a celebração, os Romeiros seguiram pela Avenida Vigilato Rodrigues Braga até a Rodovia MG-40. Com faixas em palavras de ordem, os Romeiros rememoraram as 272 vítimas fatais e denunciaram que, sete anos após o rompimento da barragem, ninguém foi responsabilizado criminalmente. Familiares carregavam fotos e os nomes de entes queridos que perderam a vida na tragédia. No percurso, faixas com os nomes das vítimas foram fixadas na ponte sobre o Rio Paraopeba.

Povos e comunidades tradicionais participaram mais uma vez da Romaria. Levando a faixa “Comunidades indígenas de Brumadinho na luta contra a mineração”, um grupo de comunidades indígenas cobrou direitos e manifestou seus modos de vida com cantos tradicionais e instrumentos. Eles também plantaram uma muda de árvore às margens do Rio Paraopeba, em um ato simbólico de esperança e resistência.
A caminha foi até a Praça das Joias, local onde os familiares das vítimas fatais realizam atos em memória e justiça. O local ganhou esse nome após o rompimento, devido à manifestação mensal dos familiares que ocupa a entrada principal de Brumadinho. O ato reúne familiares que se manifestam por meio de orações e manifestações artísticas. Simbolicamente, por volta das 12h30, horário em que a barragem se rompeu, balões são soltos no céu em homenagem às vítimas.

O rompimento em Brumadinho é considerado o maior desastre no ambiente de trabalho da história do Brasil. A maioria das vítimas fatais era trabalhadores da Vale ou empregados de empresas terceirizadas. Sete anos após o desastre-crime, nenhuma pessoa foi condenada.
Denunciado na primeira instância em fevereiro de 2020, o ex-presidente da Vale S/A, Fábio Schvartsman, foi julgado novamente em março de 2024, quando a 2ª Turma do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6) acatou um habeas corpus apresentado pela sua defesa, decidindo, assim, trancar as ações penais nas quais ele é réu, acusado de homicídio doloso duplamente qualificado e crimes ambientais, em razão do rompimento da barragem da mina de Córrego do Feijão em Brumadinho.

Maria Regina da Silva, 60 anos, é mãe da Priscila Elen, vítima do rompimento da barragem da Vale. Regina, como é conhecida, é vice-presidente da Avabrum, Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem. Ela cobra pela justiça na esfera criminal.
“É muito necessário que todos saibam o que está acontecendo. Nós tivemos 16 pessoas indiciadas nesse processo. A Polícia Civil, na sua investigação, apontou 16 réus, 16 pessoas que tiveram culpa naquilo que aconteceu. E agora em fevereiro começam as audiências de instrução. Nós vamos precisar muito de todas as pessoas nesse caminhar deste processo”, afirmou Maria Regina.

A impunidade se impõe como uma segunda violência contra as vítimas e contra toda a sociedade. Ela comunica que vidas pobres, trabalhadoras, vulneráveis, valem menos do que o lucro das grandes corporações. Comunica que crimes ambientais podem ser negociados, adiados e esquecidos.
Cléria Nogueira, atingida da comunidade Parque das Almorreimas, em Brumadinho, conta sobre a importância da união das pessoas atingidas de Brumadinho na luta por reparação, no que chamou de “um grito de justiça”.
“Muito importante estarmos aqui, dando apoio aos familiares. Também pela memória, justiça, não esquecimento, e pedindo que realmente a justiça seja feita porque são sete anos e ainda a justiça não foi feita. E também é uma maneira de consolar os corações, os amigos os familiares e estar presente porque somos uma comunidade. E Brumadinho precisa desse grito de justiça, de unidade, onde as pessoas têm que se conscientizar, porque a mineração quando é feita com responsabilidade, poderia ter envidado esse crime que ocorreu em Brumadinho que traz muita tristeza e muita dor.

Mãe Kimazandê, atingida de São Joaquim de Bicas, e dos Povos e Comunidades de Tradição Religiosa Ancestral de Matriz Africana (PCTRAMA) falou sobre solidariedade com as famílias e reforçou o sentimento de unidade.
“Hoje nós estamos aqui reunidos para que seja feita justiça, que não seja em vão. Porque os que partiram foram silenciados, mas as suas famílias, amigos e parentes, que não precisam ser de sangue porque nós estamos aqui em uma luta só, para que os culpados sejam condenados. É para isso que estamos aqui, em uma só luta”, contou Kimazandê.
Um grupo de assessores técnicos do Projeto Aedas Paraopeba deu apoio na organização da Romaria e participou dos atos no Córrego do feijão e da AVABRUM. Em janeiro, A Aedas encerrou suas atividades em Brumadinho e nos municípios da Região 2 enquanto assessoria ténica independente (ATI). Para saber mais, acesse Nota pública: Encerramento do Projeto Paraopeba – Aedas.

Diva Braga, gerente geral do Projeto Paraopeba, explicou que a presença da Aedas junto às pessoas continua, ainda mais em uma data como a do dia 25 de janeiro.
“São 7 anos sem justiça, são sem reparação. Após 7 anos, ainda há vítimas sem serem encontradas. Mais uma vez as com atingidas transformam a sua dor em luta e estão reunidas aqui em Brumadinho, no Córrego do Feijão, no ato da Romaria, no ato das famílias de vítimas fatais, que clamam e luta por memória, justiça e reparação. O Projeto Paraopeba da Aedas foi desmobilizado, mas nós seguimos compromissados com a luta dos atingidos e por isso estamos aqui, por memória, por justiça e por reparação”, afirmou Diva.
Cada pessoa não encontrada que permanecem ausente, deixa famílias sem o direito mais básico de despedida. Essa ausência é também a ausência de respostas, de respeito e de humanidade. Cada vítima não encontrada é uma ferida aberta, uma dor que não cicatriza, um luto interrompido. Recordá-las é reafirmar que nenhuma vida pode ser tratada como número, custo ou dano colateral de um modelo econômico predatório. Dia 25 de Janeiro é uma data para nunca esquecer, para que nunca se repita.
Acesse a transmissão dos atos dos familiares:
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