Nota pública: Encerramento do Projeto Paraopeba

Aos Companheiras e companheiros – Que nos tornamos nestes sete anos

Famílias atingidas, Povos e Comunidades Tradicionais, Familiares de Vítimas Fatais, crianças atingidas, trabalhadoras e Comissões, movimentos sociais e aliados da luta.

 Chegamos ao encerramento do Projeto Aedas Paraopeba, após sete anos de atuação contínua nos territórios atingidos pelo crime da Vale, com o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho.

Mas é importante dizer: este encerramento não é o fim da luta.
Não é o fim da memória.
Não é o fim da busca por justiça e reparação integral.

Esse encerramento acontece em um contexto duro, marcado por perseguições, tentativas de silenciamento e de deslegitimação de quem escolheu estar ao lado das pessoas atingidas. Um contexto em que defender direitos, denunciar injustiças e afirmar a centralidade das famílias e dos povos tradicionais passou a ser tratado como ameaça.

 Desde 2019, a Aedas esteve presente em Brumadinho-Região 1 na Região 2 da Bacia do Paraopeba — nos municípios de Betim, Mário Campos, Igarapé, Juatuba, São Joaquim de Bicas e Mateus Leme. Uma atuação construída com compromisso ético, político e técnico, sempre ao lado das pessoas atingidas.

Não foi um trabalho feito para os territórios.
Foi um trabalho feito com os territórios.

Respeitando os tempos das comunidades, as formas próprias de organização, as decisões coletivas e a autonomia das comissões gerais e de PCTs, que se constituíram em Instâncias Regionais. Caminhando junto com as famílias, reconhecendo que ninguém conhece melhor os danos desse crime do que quem viveu e segue vivendo suas consequências no corpo, na terra, na água e na memória.

Ao longo desses sete anos, a Aedas contribuiu para o fortalecimento das comissões de atingidas e atingidos, para o reconhecimento das famílias como sujeitos de direitos e para a construção coletiva da luta por justiça e reparação integral. Um trabalho que teve como prioridade as pessoas em situação de maior vulnerabilidade social — aquelas que historicamente foram invisibilizadas, silenciadas e deixadas à margem dos processos institucionais de reparação.

 Queremos destacar de forma muito contundente o trabalho desenvolvido junto aos povos e comunidades tradicionais: quilombolas, ribeirinhos, povos indígenas e outras comunidades tradicionais atingidas pelo crime da Vale. Comunidades que tiveram seus modos de vida violados, seus territórios ameaçados, suas relações com a água, com a terra e com a ancestralidade profundamente atingidas.

 A atuação da Aedas nesses territórios foi fundamental para enfrentar o apagamento dessas existências, para afirmar direitos coletivos, territoriais e culturais, e para garantir que esses povos fossem reconhecidos como atingidos, com voz, com vez e com protagonismo nos processos de reparação.

Foram sete anos de presença constante nos territórios.
Sete anos de escuta qualificada.
Sete anos de produção de informação técnica independente.
Sete anos de fortalecimento da organização popular.

Um trabalho que ajudou a transformar o luto em luta, a dor em resistência e o silêncio imposto pelo crime em voz coletiva.

Um trabalho que permitiu que famílias atingidas, inclusive aquelas em maior vulnerabilidade social, pudessem enfrentar uma das maiores empresas do mundo com dignidade, organização e consciência de direitos.

Um trabalho em que as crianças discutiram sobre direitos, projetos e reparação coletiva e denunciando as consequências do crime nas suas formas de vida.

 É fundamental, neste momento, reconhecer e homenagear cada trabalhadora e cada trabalhador da Aedas. Pessoas que, mesmo diante de ataques, perseguições e tentativas de criminalização, mantiveram-se firmes ao lado das famílias atingidas. O trabalho dessas equipes está inscrito na história da resistência de Brumadinho e da Região 2 da Bacia do Paraopeba.

 Encerrar o Projeto Aedas Paraopeba não significa encerrar a luta.
Porque o crime da Vale permanece sem plena responsabilização.
Porque a reparação ainda é incompleta, fragmentada e injusta.
Porque a justiça ainda não foi alcançada.

 A memória das 272 vidas perdidas exige compromisso permanente. Exige que não aceitemos o esquecimento, o apagamento das violações e a tentativa de normalizar o crime.

Por isso, afirmamos de forma coletiva e contundente:
Não aceitaremos o apagamento das violações.
Não aceitaremos a perseguição a quem defende direitos.
Não aceitaremos processos de reparação construídos sem a centralidade das pessoas atingidas, dos povos tradicionais e daqueles que mais precisam de proteção.

Seguiremos em luta.                                              
Seguiremos organizados e organizadas.
Seguiremos afirmando que não há reparação sem participação popular, não há justiça sem memória e não há democracia possível enquanto crimes como este seguem impunes. 

A história da Aedas na Região 1- Brumadinho e na Região-2 permanece viva na organização das comissões, na força das famílias, na resistência dos povos tradicionais e na certeza de que a luta por justiça e reparação integral continua.

Agradecemos às pessoas atingidas pela caminhada

Seguimos juntos e juntas.
Pela memória.
Pela justiça.
Pela reparação integral.

O rio ainda corre, o povo ainda luta e a criança ainda brinca!

Veja também: