O Povo ainda luta: a Aedas Paraopeba se despede do território após seis anos de atuação 

O encontrou reuniu lideranças das instâncias locais de participação nas regiões 1 e 2 e marcou um momento de partilha e solidariedade  

Fotos: Felipe Cunha

No dia 10 de janeiro, a Aedas realizou, no Centro Administrativo de Brumadinho, o encontro “O Povo ainda luta”. O momento marcou o encerramento das atividades do projeto Paraopeba e teve como objetivo trazer os acúmulos desses seis anos de assessoria técnica independente às pessoas atingidas pelo desastre-crime da Vale em Brumadinho

Na ocasião, a Aedas apresentou alguns produtos que são entregas previstas no Plano de Trabalho 06, entre eles, o livro de Danos Coletivos sofridos pelas Comunidades atingidas pelo rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão em Brumadinho. Ainda, foram entregues os Regimentos Internos da Instância Regional de Comissões e pessoas atingidas das Regiões 1 e 2. Os documentos estarão disponibilizados em novo site, organizado justamente para garantir uma forma facilitada e democrática de acesso a essas informações, após encerramento do Projeto como Assessoria Técnica Independente da Aedas. 

Regimento Interno da Instância Regional de Comissões da Região 1 (clique aqui)
Regimento Interno da Instância Regional de Comissões da Região 2 (clique aqui)

Participaram do encontro representantes das instâncias locais e lideranças atingidas dos seis municípios das regiões 1 e 2 que prestaram sua solidariedade a ATI e aos trabalhadores do projeto.  

Na abertura da atividade, foi lida uma mensagem enviada pela Ariadna, liderança da região 2, que expressa a importância do trabalho da ATI e o legado deixado pela Aedas. 

“Boa tarde a todos e todas.

Hoje nos reunimos com um sentimento misto no coração: de gratidão profunda e, também, de despedida. Falar do trabalho da AEDAS em nossa comunidade é falar de cuidado, de escuta e de compromisso com as pessoas. 

A AEDAS chegou até nós não apenas com projetos, mas com presença. Presença verdadeira, sensível, humana. Em cada visita, em cada conversa, em cada ação realizada, ficou claro que o trabalho de vocês vai muito além do técnico. Ele toca vidas, respeita histórias e fortalece a comunidade para seguir em frente com mais consciência e dignidade. 

Vocês caminharam ao nosso lado em momentos importantes, ajudando a organizar, orientar e construir soluções coletivas. Ensinaram, mas também aprenderam conosco. E isso faz toda a diferença. Quando uma instituição se coloca no mesmo nível da comunidade, nasce uma parceria verdadeira, baseada no respeito e na confiança. 

Somos gratos por todo o conhecimento compartilhado, por cada escuta atenta, por cada incentivo para que a comunidade se reconheça como protagonista da sua própria história. O trabalho da AEDAS deixou sementes. Sementes de organização, de participação, de esperança e de continuidade. 

A despedida não apaga o que foi construído. Pelo contrário, ela reforça a importância desse percurso. Levamos conosco tudo o que aprendemos e seguimos mais fortes, mais informados e mais unidos. 

Em nome da comunidade, deixamos aqui o nosso muito obrigado. Que a AEDAS continue levando esse trabalho tão necessário para outros territórios, transformando realidades e fortalecendo pessoas, assim como fez aqui. 

Desejamos sucesso, proteção e bons caminhos a toda a equipe. As portas da nossa comunidade permanecem abertas, e o respeito e a gratidão ficarão para sempre. 

Muito obrigada.”

Após o minuto de silêncio em memória e honra as 272 vidas ceifadas pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, foi exibido o vídeo: Balanço Anual da Aedas no Paraopeba – pessoas atingidas e gerências comentam ações da ATI 🎥 BALANÇO ANUAL AEDAS NO PARAOPEBA – Pessoas atingidas e gerência da Aedas comentam ações da ATI que traz uma reflexão sobre o alcance do trabalho da Aedas no território a partir da reflexão das pessoas atingidas. 

Encerrando esse primeiro momento, foi lida uma poesia escrita por Regiane Farias, assessora da Aedas, reafirmando a continuidade da luta das pessoas atingidas e a resistência para seguir sonhando com uma reparação justa e integral.  

Se a Aedas sair, o que vai ficar? 
Fica a luta do povo deste lugar. 
Fica a esperança, e a liderança de tantas mulheres… Na construção coletiva, de que isso tudo possa mudar. 
De uma proposta que implica numa reparação justa, pro povo poder caminhar. 
Fica a resistência, na permanência de cada sonhar. De rio que percorre as terras, as veias, 
E se faz sobrevivência, e mantém vivo a cada olhar. É o Paraopeba, que hoje visto como nunca foi visto antes,

Numa terra onde o barro também sangra, 
Por uma reparação justa, que dá vivência e se faz brotar. 
É sabedoria sagrada, que aos longos desses quase 7 anos 
Podemos de perto acompanhar. 

Foi troca constante, 
Ressignificando as dores, se fez filme, cartilha, 
saiu até no jornal, teve formação, seminários, e muitas reuniões que não dá pra contar… 
e assim, as criançadas deram a letra neste lugar, o povo foi se informando, 
e logo, logo, puderam se reafirmar, 
a luta é por reparação justa, e isso não se pode negar. A disputa é apenas por direito, e o povo quer cobrar. 

Deixamos aqui o nosso a continuidade 
Deste meio pra frente, essa história vocês irão contar… 
Que pisamos nestes quase 7 anos num território de luta, 
Em que a nossa única disputa, era por reparação já! 

Regiane Farias – Aedas

  Diva Braga, Gerente Geral de Participação Informada do Projeto Paraopeba, afirma que esse momento marca o encerramento de um ciclo, o encerramento do Projeto Aedas Paraopeba, mas não o fim da luta, nem o fim da busca por justiça: “É o encerramento de um ciclo, mas não é o fim da luta, não é o fim da memória, não é o fim da busca por justiça e reparação integral”.  

Diva reforçou, ainda, que o encerramento não está ocorrendo dentro de um contexto natural, mas de uma forma que não contribui com um fechamento adequado das ações do projeto. “Nós todos aqui sabemos que esse encerramento não está acontecendo dentro de um contexto natural. Está acontecendo em contexto duro, difícil, de muitos enfrentamentos e de tentativa de silenciamento, de perseguições. Em um momento em que lutar por justiça, não se render, não aceitar negociar direitos é visto como crime e como ameaça”, enfatiza.  

A Gerente Geral chamou a atenção para a responsabilidade da Aedas como Assessoria Técnica Independente que atuou desde 2020 em Brumadinho, epicentro do crime, e nos municípios da região, território com maior número de população atingida. “Qualquer descuido nosso como assessoria técnica em Brumadinho é um descuido ainda maior com Betim, Juatuba, Igarapé, Mário Campos, São Joaquim de Bicas e Mateus Leme. Inclusive com as regiões onde nós não assessoramos, porque se o direito não é conquistado com dignidade em Brumadinho, se a reparação não é justa e integral em Brumadinho, onde ela vai ser?”, questiona. Ainda segundo a Gerente, a fragilidade da reparação em Brumadinho é uma escalada de fragilidade da reparação por toda a bacia. 

Diva destacou os legados deixados pela Aedas no processo de assessoramento no território, entre eles, a escuta ativa, qualificada, o respeito a autonomia dos atingidos, respeitando os tempos das comunidades, a produção de informação técnica, independente e a comunicação a serviço daquilo que é direito para o avanço da reparação.  

Por fim, Diva Braga reafirmou que, apesar do encerramento de um ciclo, a Aedas não sai desanimada e segue como instituição compromissada com a reparação e que não aceitará apagamentos, violações, perseguição, sobretudo, não aceitará que o processo de reparação seja rebaixado.   

“A história da Aedas na região 1 e na região 2, permanece viva enquanto cada um de vocês seguir adiante de forma coletiva e unificada na luta pela reparação justa e integral”. 

Aedas apresenta o novo site e a página da transparência 

Durante o encontro, a Aedas entregou alguns produtos previstos para o encerramento desse ciclo. Também foram distribuídos os Regimentos Internos das Comissões de pessoas atingidas das regiões 1 e 2. O apoio na produção dos regimentos foi uma demanda das próprias comissões, que são as instâncias organizadas nos territórios e que zelam pela participação informada.  

Outra entrega realizada no espaço foi o lançamento do novo site da Aedas e da página da transparência. O novo site, publicado no dia 24 de dezembro de 2025, foi lançado oficialmente e apresentado para as pessoas presentes.  De acordo com Valmir Macêdo, Gestor Operacional da equipe de comunicação da Aedas, a reestruturação do site teve como objetivo facilitar o acesso às informações e aos documentos construídos junto a ATI, “além de facilitar a navegação e deixar o site mais colorido, com texturas, colagens e outros elementos que remetam à educação popular e os espaços participativos”.  

Valmir destaca duas novidades no novo site: a página da transparência e a biblioteca, que não estavam presentes no formato anterior. “A biblioteca foi algo bem importante para a gente nesse novo site, deixar esse conteúdo mais acessível, assim como a transparência que são ferramentas de garantia da participação informada”, ressaltou Valmir.  

Na sequência, a Gerente Geral do Eixo Diretrizes da Reparação do Acordo Judicial, Karina Morais, apresentou a página da transparência e destacou a importância de dar visibilidades as informações da execução do projeto. “Para nós, sempre foi muito importante reunir e dar visibilidade a essas informações, algo que já fazíamos por meio dos relatórios trimestrais, dos espaços participativos e de outros instrumentos. A diferença é que agora essas informações estão organizadas de forma sintética dentro do site reestruturado, que funciona como uma plataforma e permite um acesso muito mais simples e facilitado”, diz a Gerente. 

A página da transparência conta com um dashboard, um painel interativo que reúne diversos dados relacionados ao cumprimento do Plano de Trabalho. Esse painel apresenta os indicadores de desempenho do projeto. Um deles é a asseguração financeira, sendo esse, um ponto que merece bastante destaque: “nós alcançamos praticamente 100% de asseguração financeira em todos os ciclos, 99,8%. É importante lembrar que esse índice é aferido pela auditoria e que a margem de razoabilidade considerada é de 80%. Ou seja, em todos os ciclos, estivemos muito acima desse parâmetro, chegando sempre muito próximo dos 100%”, ressalta Karina. 

Outro indicador é a pontualidade na entrega dos nossos produtos, que está em 88%, também acima do índice de razoabilidade. Outro dado em destaque é taxa de atendimento das demandas, que, igualmente, se mantém acima dos 80%. “Aqui é importante considerar que muitas das demandas recebidas ao longo do período não faziam parte do nosso escopo ou não eram de competência da Aedas. Ainda assim, alcançamos um índice de 82%, considerando um total de 4.463 registros de atendimentos e 1.971 demandas, entre 2024-2025”, explica a Gerente Geral. 

Em relação a participação informada, o painel traz os dados dos espaços participativos. Entre 2024 e 2025, a Aedas Paraopeba realizou 2.492 espaços participativos e 1.935 visitas técnicas. Sobre os dados de participação, Karina destaca os avanços em relação aos recortes racial e de gênero: “nesse mesmo período, tivemos cerca de 15 mil participações, sendo 70% de mulheres e, desse total, mais de 60% de pessoas autodeclaradas pretas e pardas.” 

O painel não reúne os dados dos anos anteriores, pois refere-se ao escopo do Plano de Trabalho vigente e o período de reestruturação das equipes e da metodologia da assessoria, que é a partir de meados de 2023, mas, é importante destacar que, entre 2020 e 2023, foram cerca de 21 mil participações em aproximadamente 2 mil espaços participativos. Somando todo o período, de 2020 a 2025, estamos falando de cerca de 4.460 espaços participativos, com mais de 40 mil participações ao todo. 

Sistematização dos Danos Coletivos das comunidades das regiões 1 e 2  

Dentro da programação do encontro houve um momento de apresentação do Livro: Danos coletivos sofridos pelas comunidades de Brumadinho e da região 2 da bacia do Paraopeba e Represa de Três Marias, base para reparação no programa “projetos de demandas das comunidades – Anexo I.1. O material é um compilado das dos danos coletivos sistematizados pela assessoria junto as comunidades atingidas. Ao todo são dois livros, um contendo os danos do município de Brumadinho e outro com referente aos municípios: Betim, Mário Campos, São Joaquim de Bicas, Igarapé, Juatuba e Mateus Leme com Povos e Comunidades Tradicionais.  

De acordo com Airlys Ramos e Ian Almeida da equipe do Anexo I.1 da Aedas, os livros trazem os dados organizados para as regiões. Ao todo, foram sistematizados 121 danos coletivos, sendo que, em Brumadinho, foram registrados danos em 81 comunidades e, em 140 comunidades da região 2. De acordo com Ian Almeida, “Esse é o resultado de um longo caminho. A gente começou a sistematizar os danos desde 2020. E, hoje, eles estão acessíveis paras as comunidades. Os agrupamentos já recebem uma cópia dos danos sistematizados e o livro traz uma sistematização mais geral, pelas regiões”.   

Esses danos foram conferidos pelas pessoas atingidas em espaços participativos e foram encaminhados para a Entidade Gestora do Anexo I.1, para que sejam o ponto de partida para os projetos comunitários e linhas de crédito e microcrédito a serem desenvolvidos pelas pessoas atingidas. 

Os livros estão disponíveis para consulta no site da Aedas. 

Lideranças das regiões 1 e 2 falam sobre o legado da ATI e prestam solidariedade a Aedas 

Representantes das pessoas atingidas dos territórios assessorados pela Aedas fizeram parte da mesa do encontro e, após acompanhar a apresentação dos produtos realizados no momento anterior, trouxeram suas percepções sobre o que foi exposto e o momento de encerramento do projeto. 

Shirlene Gerdiken, da comunidade do Aranha em Brumadinho, faz uma crítica ao atraso no processo de reparação, ao atraso do Anexo I.1, à forma como está sendo encerrado o trabalho da Aedas no território e ao processo de escolha da nova ATI. Acrescenta que as comunidades não estavam preparadas para um encerramento de forma abrupta. 

Shirlene ressalta que o trabalho realizado pela Aedas contribuiu para reescrever a história da comunidade e cita como exemplos: o Dossiê da capela Velha do Aranha, o reconhecimento do Quilombo do Sanhudo e da comunidade Ribeirinha da Rua Amianto.

“A gente tem consciência dessa ajuda que a gente teve esse tempo todo, esse acompanhamento da Aedas. Foi a instituição Aedas, os funcionários da Aedas que dedicaram e que se tornaram uma família pra nós”, enfatiza.

Por fim, a atingida agradece ao trabalho da Aedas e expressa sua solidariedade com a ATI ao seu corpo técnico: “Eu quero agradecer imensamente a Aedas. Não é o que a gente gostaria que estivesse acontecendo, mas não vamos abandonar a causa. Aedas, sinta que vocês cumpriram o dever de vocês. O trabalho foi bem feito”. 

Babá Edvaldo, da comunidade Francelinos em Juatuba, destacou a importância da parceria entre Aedas e os Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e que foi um processo de respeito e mútuo aprendizado: “Parceira é a palavra que reúne. Representa reciprocidade. Respeito define a Aedas na relação conosco, associada a uma qualidade técnica”. Babá Edvaldo traz como um dos maiores frutos do trabalho da Aedas com os Povos de Matriz Africana o fortalecimento da organização política das comunidades.

 “A Aedas soube trabalhar essa pauta para sairmos da invisibilidade. A pauta do protocolo de consulta. Conseguimos participar de todos os anexos e essas conquistas que tivemos serviram para toda a Bacia”, afirma. 

A entrada do município de Mateus Leme na reparação, por exemplo, é apontada por Babá Edivaldo como uma conquista revolucionária e que só foi possível com a parceria da Aedas na luta contra o racismo religioso. Babalorixá acrescenta que reconhece a qualidade técnica da Aedas na elaboração do diagnóstico de danos das comunidades da região 2. 

Por fim, a liderança afirma que tem confiança na luta: “Eu tenho expectativa e confiança na luta, no que nós conseguimos, no poder de organização. E que venha a assessoria técnica que vier, eles vão ter que nos ouvir, enfatiza Babá Edvaldo. 

Maria Aparecida, Paré, da comunidade Tejuco, Brumadinho, relembrou a situação em que se encontravam as pessoas e as comunidades da Zona Quente quando a Aedas chegou no território para iniciar o trabalho da assessoria. 

“Quando a Aedas chegou aqui no território, a gente estava sem chão. Principalmente a gente que mora na zona quente. Eles me pegaram na pior fase da vida. Aí, foi com muito carinho que a gente continuou com eles a luta”. Paré reforça a sua solidariedade com a Aedas e os profissionais que fizeram parte do projeto Paraopeba 

Joelisia Feitosa, do município de Juatuba, destacou as violações de direitos com a retirada da Aedas dos territórios assessorados e os legados deixados pela instituição. 

“Temos um grande respeito pelas conquistas que foram deixadas pela nossa assessoria. O legado deixado aqui pra nós da ATI é inquestionável, porque hoje nós temos pessoas preparadas para fazer o discurso, preparadas para a luta para a garantia do direito, preparadas para compreender que, inclusive, o processo que tá sendo orquestrado para uma eleição de outra ATI é totalmente irregular, totalmente ilegal, totalmente ilegítima, que fere direitos, que não ouviu os protocolos dos Povos e Comunidades Tradicionais, da população indígena, da população quilombola”, diz Joelisia. 

A atingida pondera que o acesso ao direito ainda é um grande desafio, mas que a população da bacia do Paraopeba está organizada e acredita na reversão desse processo: “A população atingida, da Bacia do Paraopeba agora está organizada. A população A população agora tem um espaço de participação importante construído pela assessoria técnica. E, tenham fé, iremos reverter essa situação junto ao anexo 1.1, vamos garantir o direito da população”. 

Edimar da Silva, do Quilombo de Marinhos, Brumadinho, ressaltou a importância do trabalho da Aedas no resgate da autoestima da comunidade e para o seu reconhecimento como sujeitos de direitos.

 “O que seria de nós se não fosse vocês da Aedas?. Trouxeram conhecimento, orientou a gente que somos um povo preto sofrido. E a cada momento que a gente encontrava com vocês e falava: ‘A gente não vai dar conta’, mas vocês diziam: ‘Vocês não podem desistir. Vocês têm o direito’. Isso ficou muito marcado”.

Edmar compartilhou com as pessoas presentes a notícia da constituição do núcleo PCT de Brumadinho, fruto da organização das comunidades que lutam por justiça.  

Encerramento e compromisso com a reparação  

Para encerrar a atividade, a gerente de Reparação Ranúzia Netta, conduziu um momento de memória coletiva, de abraços, despedidas e acima de tudo reconhecimento da mútua aprendizagem, onde atingidos e trabalhadores rememoraram nossas metodologias ao longo desse tempo como a organização dos grupos de GAAs e Rodas de diálogos, reuniões de comissões e espaços participativos com as equipes de mobilização e multidisciplinares, os estudos e consultorias que contribuíram para evidenciar a partir da participação popular as violações aos modos de vida,.

“Vocês seguem denunciando todas as injustiças enquanto Instância Regional, enquanto conselheiros e conselheiras, representantes dos setores na governança popular do Anexo I.1, vocês seguem nessa construção popular  em cada lugar de Brumadinho, Mario Campos, Juatuba, Betim, Igarapé, São Joaquim de Bicas, Mateus Leme, reivindicando uma reparação que respeite os modos de vida e a natureza, respeite as memórias. E que seja possível seguir em resistência, lutando para que a reparação coletiva tenha como centralidade o direito das pessoas atingidas, respeitando o epicentro do rompimento, os familiares de vítimas fatais, os povos e comunidades tradicionais e as crianças atingidas”. 

Ranúzia destacou ainda que este ano completam 7 anos de rompimento, de um crime continuado, sem reparação e sem justiça, com um poema escrito, lá no início do projeto por um trabalhador da Aedas, Leonardo Cruz. 

Hedionda é a ambição 
Do lucro e das vidas 
Com tantas vidas perdidas 
Como faz a reparação? 
Os danos da emoção superam o material 
Não se calcula afinal 
Não se enterra a esperança 
Com a lama do capital

O encontro foi um momento importante e simbólico de encerramento do projeto. As pessoas atingidas presentes puderam expressar sua solidariedade com a Aedas e toda a sua equipe, bem como reafirmar a continuidade da luta e da organização do povo da bacia.  

Que cada comissão, cada liderança siga na luta por Direito e respeito ao acordo judicial, nas movimentações judiciais sobre as indenizações individuais e a liquidação coletiva, a denúncia da Vale responsável pelo desastre-crime. Que a autonomia, as formas de organização por território sigam na disputa de narrativas, da defesa dos bens naturais que foram contaminados, nas denúncias dos crimes que seguem sendo cometidos pela Vale e por grandes empreendimentos que perpetuam a minério dependência, e acima de tudo, na luta por Justiça para as 272 vítimas fatais e todas as pessoas que seguem sendo vitimadas no seu processo de luto e luta.  

Para a Aedas, a construção coletiva realizada até aqui é uma construção que não se encerra com o projeto, mas que seguirá firme, com a força e a luta das pessoas atingidas, enquanto a luta por reparação e justiça for uma necessidade

No marco do encerramento do projeto, a Aedas publicou uma nota pública sobre o significado desse momento.  

“A história da Aedas na Região 1- Brumadinho e na Região-2 permanece viva na organização das comissões, na força das famílias, na resistência dos povos tradicionais e na certeza de que a luta por justiça e reparação integral continua.”, diz o documento.  

Você pode acessar a nota pública no link:



Texto: Elaine Bezerra – Coordenadora Geral de Comunicação Aedas Paraopeba
Fotos: Felipe Cunha


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Paraopeba: Encontro "O Povo Ainda Luta". Despedida da Aedas Paraopeba