
Durante muitos anos, a propriedade rural de Maria Célia Albino de Andrade foi referência em produção agrícola e pecuária na região da Barra do Cuieté, distrito de Conselheiro Pena (MG). Entre os pés de goiaba carregados, coqueiros produtivos e o rebanho leiteiro em constante crescimento, ela construiu uma trajetória marcada pelo trabalho, pela dedicação e pelo sonho de ampliar a produção familiar.
Integrante do projeto Balde Cheio, iniciativa voltada ao fortalecimento da pecuária leiteira, Maria Célia transformou sua propriedade em uma unidade demonstrativa. A cada quinze dias, recebia visitantes interessados em conhecer as técnicas que aplicava no manejo do rebanho e na produção rural.
“Era uma fase muito boa. A propriedade recebia ônibus cheios de pessoas para conhecer o trabalho que a gente fazia. O leite e a goiaba eram os carros-chefe da produção”, lembra.
A produção impressionava. Em dois hectares de goiabal, eram colhidas entre 30 e 35 toneladas por safra, com duas safras anuais. O leite alcançava uma média de 500 a 600 litros por dia e seguia em crescimento. Além disso, havia produção de coco, milho para alimentação do gado, criação de aves, peixes e uma grande horta que ajudava a garantir o sustento e a segurança alimentar da família.

Essa realidade mudou drasticamente após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015. A lama com rejeitos da mineração que sufocou o Rio Doce também atingiu a propriedade de Maria Célia e destruiu parte importante da estrutura produtiva construída ao longo de décadas. O goiabal foi completamente perdido. Os coqueiros tiveram a produtividade comprometida e muitos morreram. A criação de animais passou a enfrentar problemas reprodutivos, e a produção de alimentos foi reduzida.
“Depois do rompimento da [barragem de Fundão], a produção praticamente zerou. Caiu cerca de 80% a 90%. Eu não conseguia nem pagar o vaqueiro. Passei seis meses sem receber nada. Foi uma fase muito difícil”, recorda.
Entre todas as perdas, a destruição do goiabal permanece como uma das lembranças mais dolorosas.
“O goiabal era o cartão-postal da propriedade. Quando arrancaram os pés depois da lama, foi um dos dias mais difíceis da minha vida. Eu nem consegui ver. Virei as costas e fui embora chorando.”

Atualmente, a principal atividade mantida na propriedade é a produção de leite. Mesmo assim, a retomada ocorre em condições muito diferentes das existentes antes do desastre-crime. O sistema de pastagens irrigadas foi substituído pela dependência de silagem fornecida por medida judicial, uma solução temporária que gera insegurança sobre o futuro. “Hoje, as vacas ficam no cocho e dependem da silagem. Se esse apoio acabar, a produção cai imediatamente. A terra ainda não se recuperou.”, afirma a produtora rural.
Além da perda de renda, Maria Célia destaca que os prejuízos ultrapassam os danos econômicos. Para ela, as consequências do rompimento atingiram a vida familiar, emocional e psicológica das pessoas que dependiam diretamente da terra e da água para sobreviver. “O que a gente viveu aqui não foi só perda material. Foi perda emocional, familiar, psicológica. Atingiu tudo.”
Apesar das perdas acumuladas ao longo dos últimos anos, Maria Célia não esmoreceu. Entre os desafios de manter a atividade rural e reconstruir o que foi perdido, ela também encontrou força na organização coletiva das pessoas atingidas. A produtora rural participa dos espaços de organização das pessoas atingidas e acompanha de perto a luta das mulheres por reconhecimento dentro do processo de reparação.

Segundo ela, muitas mulheres atingidas ficaram invisibilizadas nos primeiros cadastros realizados após o rompimento, o que dificultou o acesso a direitos e programas de reparação.
“A gente precisa de apoio para recuperar a produção, melhorar o solo, manter a irrigação e alimentar os animais. Sem isso, a atividade não se sustenta.”
Mesmo diante das dificuldades, ela segue acreditando na força da organização coletiva das pessoas atingidas.
“Eu acredito na força coletiva. Sozinho, ninguém é ouvido.”
Mais de dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, Maria Célia continua lutando para manter sua produção e para que os danos sofridos pelas comunidades atingidas sejam efetivamente reconhecidos e reparados.
“Ser atingido não é só a lama que passou. É tudo o que vem depois.”
Texto: Thiago Matos – Assessor de Comunicação da ATI Aedas Médio Rio Doce



