Dia Mundial da Saúde: água insegura agrava danos à saúde de comunidades atingidas na bacia do Rio Doce

Levantamento da Assessoria Técnica Independente Aedas aponta aumento de doenças, sofrimento mental e medo no uso da água mais de dez anos após o desastre-crime de Mariana

Pessoas atingidas durante ato público em Governador Valadares Foto: Cleiton Santos/Acervo Aedas

O acesso à água tem sido fonte de medo e adoecimento para milhares de pessoas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão. Dados sistematizados pela Assessoria Técnica Independente Aedas Médio Rio Doce, reunidos no documento técnico “Análise das Demandas Comuns de Saúde das Regiões do Médio Rio Doce”, revelam que a insegurança em relação à qualidade da água segue provocando danos à saúde física, mental e no cotidiano das comunidades atingidas ao longo da bacia do Rio Doce. 

De acordo com o levantamento, a água aparece como o principal eixo das demandas relacionadas à saúde, representando 30,8% dos registros. Entre as principais preocupações estão a necessidade de acesso à água potável (33,1%), a busca por fontes alternativas ao Rio Doce (23,1%), alterações na qualidade da água – como cor, cheiro e gosto (14,9%) – e o medo de consumo por possível contaminação (6,2%). 

Os dados também apontam para um cenário preocupante de adoecimento. Entre os problemas mais relatados estão sintomas dermatológicos, doenças gastrointestinais, enfermidades de veiculação hídrica, além de doenças respiratórias, renais e crônicas. Além dos danos físicos, cresce também o número de registros relacionados à saúde mental, que já representam 14,6% das demandas.  

Ansiedade, medo constante de contaminação, uso de medicamentos psicotrópicos e aumento do consumo de álcool e outras drogas também estão entre os efeitos observados. A insegurança sobre a água altera práticas cotidianas, restringe seu uso e atinge diretamente a qualidade de vida das famílias. 

A desconfiança também alcança a alimentação. Parte significativa das pessoas atingidas relata medo de consumir alimentos potencialmente contaminados, o que compromete a segurança alimentar e nutricional. Em alguns casos, há redução do consumo de água por receio, o que pode agravar problemas de saúde, como desidratação e doenças renais. 

Do município de Itueta, a atingida Marluce Vieira de Almeida trouxe um relato sobre os danos sociais e econômicos enfrentados pelo município. “Não conseguimos mais usar o rio Doce. Isso causou danos em tudo: nossa renda, nossa cultura e nossa vida social.”, desabafa.  

A desconfiança em relação à água foi apontada pela atingida durante encontro com representantes do Governo Federal. “Ninguém confia mais. A confiança acabou. A gente utiliza a água e o nosso corpo fica coçando. Diversos relatos de alergias e doenças gastrointestinais estão sendo relatadas desde o fornecimento da água da nossa cidade está sendo feito com a água do rio Doce”, denunciou. 

Para a Elida Dias, coordenadora da equipe temática sobre Saúde da ATI Aedas Médio Rio Doce, o cenário evidencia que os danos vão além da contaminação ambiental. “Há um processo contínuo de adoecimento que envolve não apenas a exposição, mas também a perda de confiança, a insegurança e as mudanças forçadas no modo de vida das comunidades”, aponta. 

Antes do desastre-crime, muitas dessas populações tinham relação direta e cotidiana com o Rio Doce e outras fontes de água. Hoje, enfrentam uma realidade marcada pela dependência de sistemas de abastecimento e pela desconfiança em relação à qualidade da água disponível. 

Mais de dez anos após o rompimento da barragem, o direito à água segura e à saúde integral segue sendo uma demanda central das comunidades atingidas, que ainda aguardam medidas efetivas de reparação.

Metodologia utilizada

Os dados foram sistematizados pela equipe de saúde da Aedas a partir das falas de pessoas atingidas registradas durante espaços participativos intitulados ‘Grupos de Atingidos e Atingidas (GAAs)’, principal espaço de escuta coletiva nos territórios atingidos assessorados pela ATI Aedas.  

Foram analisadas relatorias de mais de 170 encontros realizados entre 2024 e 2025 nas regiões do Leste de Minas e do Vale do Aço, com informações organizadas e categorizadas por equipe técnica multidisciplinar.  

A análise foi complementada por dados dos Registros Familiares e dos relatórios dos Experts da Fundação Getúlio Vargas relacionados às categorias escolhidas para auxiliar na elaboração das análises, permitindo identificar padrões e recorrências nas demandas de saúde das comunidades atingidas.

Você pode conferir a Análise das Demandas Comuns de Saúde das regiões do Médio Rio Doce
clicando aqui.

Sobre a Aedas

A Assessoria Técnica Independente Aedas, eleita pelas comunidades atingidas, atua junto às pessoas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, oferecendo assessoria técnica para garantir o acesso à informação qualificada e fortalecer a participação nos processos de reparação. Sua atuação abrange os municípios de Ipatinga, Ipaba, Belo Oriente (com destaque para o distrito de Cachoeira Escura), Naque, Periquito, Bugre, Iapu, Santana do Paraíso, Fernandes Tourinho, Sobrália, além da comunidade de Ilha do Rio Doce, em Caratinga, e os municípios de Conselheiro Pena, Resplendor, Itueta e Aimorés.

Texto: Thiago Matos – Assessor de Comunicação da ATI Aedas Médio Rio Doce.